A conta bancária emocional

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Enquanto se prepara o ajuste de contas com o “leão”, convém tomar emprestado de Stephen Covey, autor de “Os sete hábitos das pessoas muitos eficazes”, o conceito de conta bancária emocional. É hora de avaliar débitos e créditos nas relações interpessoais. Por mais que queiram os defensores do “erro zero”, pessoas continuarão cometendo equívocos, descuidos, enganos e nem sempre por culpa ou intenção de errar. A imperfeição faz parte da natureza humana e na ocorrência do erro pode-se cada vez mais investigar causas, prevenir reincidências. Buscar o culpado não parece ser medida suficiente.

A conta bancária emocional é uma metáfora que descreve a quantidade de confiança que acumulamos nos relacionamentos. Faz-se “retirada” por exemplo, ao tecer comentários maliciosos que baixam a estima do outro, quando se usa com descuido as palavras na hora de criticar. Falar mal dos ausentes, dar ouvidos às fofocas, , trair a confiança e falta de cortesia são também da mesma categoria.

Outra frequente retirada na conta bancária do outro é a postura de julgar e acusar antes de perguntar, analisar os fatos. Agindo assim, sem ouvir os dois lados, pode-se precipitar e cometer injustiças.

Ser digno de confiança torna-se cada dia mais uma característica que agrega muito valor ao perfil de um profissional. Quem não se orgulharia de receber esse elogio? Então, para que se mantêm até hoje a prática de adular de frente, criticar pelas costas? Constata-se que a queda de confiança pode deixar contas bancárias “no vermelho”.

Existem pessoas que fazem diariamente “saques automáticos” na conta bancária dos colegas de trabalho. Negam reconhecimento, mentem, adiam questões importantes. Outros são ásperos, focados no que falta, indiferentes aos acertos. Penalizam erros, calam-se diante das condutas vitoriosas, dos sucessos profissionais. Incapazes do elogio, estão sempre em dívida com os companheiros de trabalho.

O pior disso tudo é que a retirada na conta bancária emocional do outro não assegura transferir saldos para a conta pessoal. Afinal, quem sai mais “rico” ao agredir, denegrir imagem, aumentar constrangimentos?

Na categoria dos “depósitos” incluem-se o elogio, a empatia, a consideração pelo outro. Incrementa-se a conta bancária emocional construindo relacionamentos éticos, negando-se a propalar comentários maliciosos, estimular a discórdia, suspeitar sem procurar esclarecer. Em lugar de se preocupar com a intimidade do outro, melhor é olhar para si, rever posturas e crenças pessoais inadequadas.

Inveja e ciúme, tentações a princípio inevitáveis, são sentimentos a serem administrados. São alertas à consciência, um chamado a admitir que se está desprezando a empatia, condição essencial para se viver em comunidade.

Igualmente deposita-se ao compartilhar informações, divulgar experiências bem sucedidas, ensinar. Hoje, com a democratização da informação, quem esconde o que sabe corre o risco de , ao decidir divulgar, constatar que todos já sabem.

Melhora-se o saldo quando entende-se que grandes mudanças demandam tempo, que não se pode pular etapas quando se trata de relacionamento. Ainda continuam valendo a amizade, o humor, a cumplicidade no plano das escolhas, dos interesses e das idéias.

Pode-se ainda avolumar a conta bancária do amigo quando não se pede a ele algo inconveniente ou constrangedor, como emprego para um parente que decididamente não gosta de trabalhar. Até onde a afeição tem o direito de ir?

Prestar atenção e valorizar mesmo os pequenos gestos, honrar compromissos, ter coragem para esclarecer expectativas, pedir desculpas, dar retorno mesmo que a resposta seja “não”, também são depósitos na conta emocional do outro.

Quem vive de fazer retiradas não terá reservas quando necessitar. Nas relações duradouras inevitavelmente acontecem retiradas. Isso não é problema para quem tem reservas.

Na entrada de 2001 convém acompanhar nossa própria conta, verificar se estamos cuidando de nós mesmos. Quem permanece em relacionamentos destrutivos, que ampliam sofrimento, pode aprender que não vale a pena a relação de dependência. Somos sempre merecedores de felicidade e podemos escolher não conviver com quem está constantemente “no vermelho” conosco. No novo milênio uma boa medida poderá ser afastar-se de algumas pessoas , parar de frequentar ambientes que arranham nossa dignidade.

Se não gostamos do que fazemos, independentemente do salário, convém repensar a carreira, correr atrás de novos sonhos. Nossa passagem por essa vida é muito breve.

No passado, grosseria, desconsideração, tratamento humilhante sempre existiram. Quem gritava mais, dava murro na mesa, parecia ser o mais forte. Hoje essa postura envergonha. Instala-se o respeito e a consideração. Gerentes educados começam a ser cada dia mais valorizados. Certamente estamos no começo da caminhada. Entretanto evoluímos menos do que se queria, menos do que o ser humano merece. Mas qualidade de vida tornou-se foco de investimento nas empresas sérias e responsáveis.

E quais têm sido os indícios concretos de mudança? Na década de noventa foram publicados centenas de livros sobre ética nos negócios, nas empresas. Artigos sobre o tema figuram sistematicamente nos jornais e periódicos. No dia 5 de dezembro de 2000, duzentas pessoas trocaram novelas, festas de formatura, aniversário de familiares por uma palestra sobre ética no terceiro milênio. Quando revistas especializadas publicam a lista das melhores empresas para se trabalhar, um dos critérios é a qualidade do clima interno. Isso mostra que querendo ou não, não se tem mais saída. É preciso fazer das empresas um bom lugar para se trabalhar. Só não vê quem não quer!

E, sem ilusões, constata-se que salário, planos de benefícios, clubes recreativos não sustentam motivação. É preciso tratar as pessoas com respeito, mostrar consideração, valorizar contribuições através do elogio sincero. Assim estaremos mantendo nossa conta bancária emocional com saldo positivo.

Publicado no Jornal Estado de Minas, 25/02/2001

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