As aparências enganam

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Anúncios de emprego revelam muito sobre a empresa que está selecionando seus funcionários.

Até a década de setenta, eram frequentes as oportunidades para menores que deveriam ser “não estudantes”, o que explicitava o desestímulo à educação, sem qualquer acanhamento. Um país que ainda luta contra o analfabetismo, que ostenta baixos níveis de escolaridade contou, muitas vezes, com o apoio de empresários para piorar as estatísticas. Mulheres foram igualmente discriminadas por serem casadas ou por estar em idade reprodutiva. Mas, em especial, a aparência física complicou a vida de muitas.

Parece que teremos dias contados para exigir “boa aparência”. Finalmente, e o pior, por regulamentação governamental, tudo indica que estaremos nos livrando dessa discriminação vergonhosa e sem propósito.

Temo que se tire esse critério do anúncio mas que se continue sua prática, no momento de escolha já que existem fatores que sustentam estas solicitações como a cultura machista, a tendência a admitir profissionais bonitas que sirvam como atrativo para cliente ou para terem “casos” com os chefes.

A tão difamada globalização da economia está impondo o rompimento de muitos preconceitos e discriminações. Beleza física pode determinar muito na moda, na TV, no cinema, nas revistas, mas não sendo associada a talento, não assegura permanência no mercado. “Beleza não põe mesa”, mesmo quem admira a arte de enfeitar alimentos sabe que convém também caprichar no paladar. E como o tempo insiste em passar, a boa aparência costuma encher-se de rugas.

Por um outro lado, vale lembrar que cuidado com a aparência é um pedido legítimo. Costuma acontecer de se descuidar do lado de fora e também negligenciar aspectos interiores. Descuido consigo pode mostrar estado emocional negativo, baixa energia, baixa estima. Isso afeta desempenho, costuma comprometer clima de trabalho, gerar mal estar nas relações.

O que preocupa é o extremo oposto. Acreditar que os não dotados de “boa aparência” devam ser preteridos e, infelizmente, existem outros agentes envolvidos nesse processo que, muitas vezes, fazem pacto de silêncio, reforçando a discriminação. Falo de nós, profissionais de recursos humanos. Como prestadores de serviços, nem sempre podemos negligenciar os critérios do cliente mas, cabe apontar a discriminação. Cabe lutar pela justiça e tratamento digno ao ser humano excluído de oportunidades por fatores sobre os quais não têm controle. Cor da pele, altura, qualidade dos cabelos, estatura, beleza não fazem parte de um cardápio onde se pode escolher.

No livro “Uma ética para o novo milênio” Dalai Lama comenta seu mal estar quando pensa nos profissionais que projetaram os equipamentos de tortura, os crematórios dos judeus nos campos de concentração. Pode ser comparação exagerada, mas é um ser humano que discrimina e encontra outro que redige seu pedido, que cerra os olhos para a dignidade humana e exclui os de “má aparência”. Muita gente se forma, faz juramento e, infelizmente, logo se esquece do que prometeu.

Publicado no Jornal O Tempo – 25/11 a 01/12/00

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