O Poder da Parceria – a díficil arte de conviver

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Idéias para uma nova comunidade

Fazer da cidade um lugar digno de se viver e criar filhos implica em aprender a árdua tarefa de viver em condomínios, esperar que o vizinho limpe o lote vago, que abaixe o som, que termine as festas barulhentas depois das 24 horas. Muitos sonham com a morte súbita do cachorro do vizinho que chora noite inteira, outros brigam por melhor vaga na garagem, sem contar quem se recusa a contribuir com as reformas do prédio.

O preço de pertencer a uma comunidade é muitas vezes a perda da autonomia individual: é preciso aprender a conviver e isto só se tornará viável se soubermos o que nos une.

Forças aparentemente contraditórias, nos impelem para fora, buscando estar conectado aos outros, tornando o instinto de comunidade presente em todos os lugares.

A responsabilidade pessoal está em queda. Especialmente as famílias de classe média precisam entender que filhos da riqueza querem suas exigências pessoais atendidas, esperam que as regras sociais sejam criadas ou quebradas para eles.

Nenhuma sociedade pode depender da presença constante da polícia para combater os crimes: precisa estruturar-se a partir da obediência voluntária, que decorre dos valores compartilhados desenvolvidos ao longo de milhares de anos de experiência da humanidade.

Precisamos educar o caráter. A família precisa ser recuperada, desde que centrada em valores e civilidade. Além da criação de riqueza ou poder, precisamos pensar a qualidade de vida.

O capitalismo, sem compromisso com o que pudesse ocorrer nos próximos 50 anos, fez agravar, entre outros, os problemas ambientais e se esta visão desastrosa permanecer, poderá tornar-se impossível a vida na terra. A comunidade precisa de investimentos a longo prazo. Não se pode esperar por uma economia saudável em uma sociedade doente.

Passando por mudanças profundas no estilo de vida, a comunidade vive a ansiedade e o receio, a insatisfação e experimenta, ao mesmo tempo, a vontade de mudar e a inércia de adotar ações concretas de transformação da comunidade. Não se pode ter de um lado espectadores e de outro executantes. A sociedade precisa se mover como um todo.

A revolução tecnológica está desenhando novos direitos, novo modo de trabalhar e mudando significativamente a natureza dos relacionamentos. Surgem novos riscos e novas oportunidades e a mentalidade do “direito” será substituída pela responsabilidade ativa. Cada um de nós precisa fazer a sua parte, pelas tarefas que a vida demanda e para encontrar saídas para a crise em que estamos.

A sociedade demanda por liberdade para se agir, mas a cidadania não pode ser entendida como a conquista dos direitos para o indivíduo e as responsabilidades deixadas para o governo. Cidadão da democracia devem cumprir suas responsabilidades e obrigações para com a sociedade, além de desfrutar de direitos e privilégios.

Empresas precisam assumir o compromisso de capacitar pessoas não apenas para produzir, como também para ter maior controle sobre sua vida e contribuir para o bem comum.

As pessoas estão lutando para redescobrir o sentido de viver e de trabalhar em conjunto. Inclusão e participação serão palavras que ouviremos com maior freqüência e, para isto, o aumento do voluntarismo fará das organizações sem fins lucrativos um setor vital para a viabilização de uma vida mais digna. Todos devemos estar envolvidos na solução dos problemas, especialmente na eliminação da pobreza generalizada de nosso país.

No mundo sem emprego, torna-se urgente transformar a organização do trabalho, tornando as comunidades organizacionais mais humanizadas, com o conhecimento cada vez mais compartilhado.

O mundo continuará a mudar de forma rápida e inesperada, mas os seres humanos continuarão a formar comunidades pautadas no senso de compromisso, preferindo a convivência ao isolamento.

Não vi o ano passar! Uma exclamação conhecida, repetida sistematicamente de setembro a dezembro. Há também quem diga: esse bem que poderia passar rápido! Sem conseguir atender a gregos e troianos, o ano decide continuar seu ritmo: vinte e quatro horas, sete dias, doze meses.

Resta-nos então ver conscientemente o tempo passar. E não parece que para isso dinheiro seja o único determinante. Ricos infelizes, pobres felizes, donos de empresa com filhos internados por uso de drogas, trabalhador radiante ao voltar da formatura do filho mostram o desafio de viver.

Viver com qualidade decorre de postura pessoal diante da realidade e, por mais que a sociedade de consumo tente nos convencer que ter é ser, muitos não se deixam enganar.

Dois mil anos podem não ter sido um marco de grande evolução humana. Violência, fome, miséria, estão ai para denunciar os equívocos da sociedade. Mas o terceiro milênio está sinalizando algo muito importante. Estamos nos livrando da mentira. Estamos aprendendo a valorizar a amizade, virtude que sustenta as parcerias.

Aprendi com Cícero, romano, 430 AC que amizade vem da palavra amor e fundamenta-se na simpatia mútua. Não podem ser considerados amigos os que se ligam por interesse ou simplesmente parentesco. Sendo a mais nobre cumplicidade dentre as escolhas, interesses e idéias, a amizade só é possível entre pessoas de bem. Parentesco pode existir sem vínculos de afeto. Amizade não.

Dos amigos não se pode exigir algo desonesto, inconveniente, constrangedor. E na amizade cabe dizer isso ao outro.

Firmeza e autoridade cabem na amizade como forma de influenciar amigos que fazem escolhas inadequadas, se entregam à inércia, depressão. Dizer a verdade, ser duro às vezes. Se preciso podemos levar amigo ao médico, tirá-lo da cama para ver o sol e com franqueza estimular que experimentem, arrisquem, ponham em prático um conselho, uma sugestão. Mas sempre será importante admitir que conselho e sugestão podem ser mal recebidos, podem não dar certo, podem ser recusados. Querendo ajudar, muitas vezes supomos que o outro deva receber. Pode ser que ele não queira, ou não suporte, ou não seja capaz.

Não sei se temos mais amigos que dedos nas mãos. Nem sei se é preciso. Amizade é vínculo raro e nem por isso pede intimidade. Basta a sinceridade. Posso ter amigo e não compartilhar determinadas questões com ele, o que nem fragiliza a relação nem a descaracteriza. Apenas assegura espaço individual e liberdade.

Parcerias muito sérias, rígidas, que aprisionam, acorrentam e engessam, melhor trocá-las por outras, mais agradáveis, amenas, bem humoradas e sinceras.

Seria conveniente evitar as parcerias só porque elas impõem compromisso, tempo, quebra de expectativas, preocupação? Creio que correr de uma preocupação fará encontrar outras.

O maior desafio das parcerias é fazê-las durar. Destinar a manhã de um sábado para um encontro prazeroso com pessoas que compartilham inquietações, mostra que depende de nós a construção de espaços de convivência, depende de nós a persistência em não ceder à indiferença, entrar na roda viva de ganhar dinheiro, gastar sem ver como, viver superficialmente.

No compromisso com a comunidade mudamos muito, e os vínculos podem se desfazer. Além disso não se pode tolerar o intolerável. Se as circunstâncias de vida levam amigos a discordar no básico, melhor romper a amizade com dignidade, com cuidado. Onde houver respeito e afeição convém não deixar instalar-se o ódio. Na ruptura cabe cuidado. A grande marca da dignidade se vê quando a parceria precisa ser rompida. Entre amigos não convém arrebentar o que se pode desatar. Com respeito e maturidade pode-se deixar afrouxar, até desaparecer, de modo que se possa cruzar caminho sem mudar de lado, fingir não ver, evitar encontros.

E para dizer-se parceiros é fundamental admirar, ter simpatia, experimentar o difícil papel de estar ao lado, sem sentir-se melhor ou pior. Torcer a favor, respeitar a ausência. Aplaudir o voo. Somar.

Somos imperfeitos, e precisamos aprender a perdoar o que não vier dos amigos, a não ser o que fira a ética, o respeito. Não vale brigar por picuinhas, por pequenos esquecimentos. Amigos precisam respeitar o “não”. Não agora, isto não, alí não.

Desentendimento constante, gritos, indiretas que magoam são sinais de alerta: amizade não resiste à discórdia ofensiva., ao modelo “entre tapas e beijos”.

Não podemos frear o voo dos parceiros. Inveja, disputas, possessividade e ciúme são sinais de fragilidade de vínculos.

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