Respeito é bom e a gente gosta

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Recentemente assustou-me ver, às nove e trinta da manhã, dois adolescentes capotarem uma pick up importada numa rua calma, de pouco trânsito. Visivelmente drogados, saíram ilesos, chutaram o carro, ligaram para casa, a mãe chegou logo e chamou a seguradora. Rapidamente tudo se resolveu. Não sei se passou pela cabeça desses pais que seus filhos poderiam ter matado alguém que estivesse ali, naquela hora. Filho que usa droga pode ter chave do carro?

Esse episódio permanece em minha memória e inevitavelmente, remete-me a outros fatos igualmente impressionantes.

Contou-me um professor universitário que um aluno assim se referiu a ele em sala de aula: -“Careca, sai da frente, que não consigo ver o quadro”.

Além de não se darem conta do erro de concordância verbal, os colegas riram grosseiramente.

Uma professora de outra faculdade demitiu-se porque um aluno, insatisfeito com a nota, levantou-se e saiu da sala dizendo-lhe grosseiras ofensas verbais. Não foi possível expulsar o aluno, pois no regimento da escola essa pena não esta prevista. Certamente quem o elaborou não contava com essa.

Outro aluno, também insatisfeito com a nota, agrediu fisicamente o professor.

Envergonha-nos a falta de educação dos nossos adolescentes e esta constatação dói mais forte quando se observa, nos nossos próprios filhos, condutas que desaprovamos.

Grande parte das mulheres da minha geração entrou no mercado de trabalho como quem primeiro pula na piscina, depois pergunta se tem água. Para romper com a dependência financeira, conquistar espaço e construir carreira, a mulher deixou os filhos aos cuidados de empregados, a quem se delegou o trabalho duro de cuidar, sem a autoridade para educar, colocar limites, ensinar respeito e polidez.

Inicialmente as conseqüências não foram muito sérias, porque estavam disponíveis babás vindas de famílias estruturadas, que demonstravam responsabilidade, tinham vidas centradas em princípios como fidelidade e responsabilidade.

Com a crescente miséria, violência, aumento da desigualdade social, nem sempre se pode, hoje, contar com empregados que consigam suprir a ausência dos pais, educando e dando afeto.

Quem optou por creches e berçários, igualmente enfrentou desafios. A escola não substitui o lar, por mais que conte com pessoal competente e confiável.

Ausentes, os pais foram se tornando permissivos, acreditando que o filho encontra seu rumo sozinho. Descuidaram-se muito de observar posturas, entender pequenos sinais, agir em tempo hábil.

Filhos que vão à escola em carros importados, costumam sujar banheiros, deixar cantinas e salas de aula em estado deplorável. Raramente cumprimentam professores, jamais se despedem dos funcionários, muito menos pedem desculpas quando incomodam alguém. Entram nos elevadores como se estivessem num estádio de futebol e na geral. Aliás, gente da geral costuma se comportar melhor.

Outros atendem o celular, conversam sem parar ou dormem durante as aulas, rabiscam carteiras, elevadores, banheiros.

Criados sem limites, não sabem viver em sociedade. Raramente respeitam sinais de trânsito, dirigem embriagados, roubam o carro dos pais. Os danos…a companhia de seguros pagará. Só que em alguns casos não só os carros sofrem danos.

Em breve esses adolescentes se formarão nas universidades, registrarão seus diplomas nos conselhos, serão médicos, advogados, psicólogos, dentistas, professores.

Estaremos passando a tocha. Não sei se preparamos bem a sucessão.

Conheço uma escola pública próxima à barragem Santa Lúcia que pode ser modelo de cuidado e zelo pelo coletivo. Localizada nas proximidades de uma grande favela, não apresenta nenhuma parede riscada, nenhum lixo fora do cesto de lixo. Seus banheiros são limpos, completamente conservados e seus jardins estão sempre floridos.

Pode-se aprender muito com essas mães bem sucedidas, moradoras da favela, com professores de escolas públicas que conseguem, com êxito, ensinar disciplina e desenvolver hábitos indispensáveis ao cidadão e à cidadania.

Acredito que esses atores sociais têm em comum a persistência. Não desistem dos filhos. Não tendo a quem delegar a educação dos filhos, assumem a responsabilidade de estar atentos a eles, chamam para si a tarefa de dizer sim e de dizer não.

André Comte-Sponville, em seu livro “O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, mostra que virtude se ensina pelo exemplo. Virtude se aprende, primeiro pela imitação, só depois ocorre a internalização. As boas maneiras precedem as boas intenções e levam a estas. Como nenhuma virtude é natural, é preciso tornar-se virtuoso. É praticando que se aprende. Proibições e limites permitem à criança, mais tarde, praticar ética na conduta. Não se pode permitir que o filho empurre o colega, roube ou minta. Ações justas nos tornam justos, ações corajosas nos tornam corajosos.

Pedir desculpas, dizer por favor, agradecer, demonstram reconhecimento. Aí começa o respeito que se consolida com a repetição.

Parece urgente relembrar que o conceito de “educação” vai além do que viabiliza o ensino formal. Educação, no sentido amplo, inclui cortesia e polidez.

Convém ensinar aos filhos a respeitarem os mais simples, as pessoas mais humildes. Afinal, tudo indica que a liderança continuará sendo um atributo indispensável ao profissional do terceiro milênio . Líderes polidos terão muito mais valor na empresa do futuro.

É também conveniente insistir no que defende Sponville: polidez não basta. A polidez é a primeira das virtudes por que prepara para as grandes, mas sozinha vale pouco. De que adiantaria um torturador polido? Grosseiro generoso é melhor que um egoísta polido. Tudo indica que um homem bom e descortês é melhor que um crápula refinado.

Além da polidez mostra-se urgente ensinar respeito e ética aos nossos filhos. Cidade suja, copos de papel jogados nas cantinas, nos salões de festa, ofensas aos professores, mostram que os pais não têm cumprido seu papel. Pais não podem ter medo dos filhos, nem esperar que a escola ou a polícia ensinem a eles ética e respeito.

Juizes roubam, políticos mentem, empresários gananciosos continuam soltos mesmo depois que desabam prédios mal executados. Mesmo assim não vale dizer que nesse país o mau exemplo vem de cima. Os maus exemplos devem servir de referência para ressaltar que não vale viver assim. Amargar má fama e desonra não parece ser o futuro que desejamos para os nossos filhos.

Poucos pais sonham ver os filhos enriquecendo à custa de desvio do dinheiro da previdência social, roubando, sonegando, mentindo.

A mulher não poderá mais retroceder, ficar em casa, abrindo mão de carreira até que os filhos cresçam. Ser mãe é mais que enfeitar filhos, levá-los para passear em carrinhos de luxo. O pai precisa voltar para casa, fazer-se presente na vida dos filhos. Muitos só ficam sabendo dos problemas que adolescentes enfrentam quando notícias assustadoras chegam aos seus ouvidos, quando a escola chama ou a polícia telefona.

Filhos criados sem limites crescem e um dia entram para o mercado de trabalho. Serão membros de equipes, proprietários de pequenos ou grandes negócios, coordenadores de projetos. Para os profissionais de recursos humanos, serão grandes desafios. Já não tem sido fácil ensinar administração de tempo, planejamento e ética aos gerentes. Igualmente desafiador é estimular a cooperação nas equipes quando a inveja e o medo correm soltos nas relações entre os pares, entre setores de mesma empresa.

Nos processos seletivos será fundamental encontrar tempo e estratégias para conversar, saber sobre os amigos, discutir eleições, saber o que o candidato pensa sobre corrupção, mudanças na Iugoslávia no ano 2000. Isto abrirá portas, permitirá levantar hipóteses sobre os valores que orientam a vida e a postura dos futuros membros das equipes, como interpretam a realidade e posicionam-se diante da vida. Muitos surpreenderão os entrevistadores pela alienação, outros pelas opiniões críticas e consistentes.

E para prevenir ambientes marcados pela competição, falta de confiança, tratamento grosseiro e delação, cabe identificar e dar preferência a quem der provas de entender que se vive em coletividade e que gentileza e respeito fazem bem e a gente gosta.

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