Sabe com quem você está falando?

Posted on Posted in Artigo

Homens e mulheres defendem o pão de cada dia em ambientes de trabalho marcados por ofensas mútuas, competição, disputas de cargos, prestígio, posição. Trabalhar nem sempre é experiência de satisfação pessoal. Inveja, delação, ciúme, agressividade e humilhações estão quase sempre presentes.

Muitos profissionais cansaram-se de disputar, lutar, brigar e não concluir projetos. Aqueles que optaram pelo trabalho autônomo aparentemente saíram desse jogo. Como agentes externos, não tendo que competir por posições hierárquicas, realmente saíram do jogo. Mas continuam assistindo aos torneios. Quem decidiu ser empresário, continua presenciando conflitos entre áreas, delações, bajulações.

Palestras e seminários fazem apologia ao trabalho em equipe, pregam a harmonia, sugerem estratégias para cooperar mais e competir menos. Esses temas parecem óbvios, todos dizem já saber disso, mas poucos podem ser considerados bons membros de equipes.

Sem dúvida, não se está pregando no deserto. Muitos participantes entendem que o cargo em si nada vale. Proporciona sim, ilusão de poder e prestígio. Perdido o cargo, falsos amigos e exímios bajuladores desaparecem.

Muitos entenderam e acordaram; entretanto outros permanecem iludidos, brigam para ter vaga na garagem, viajar de avião , almoçar no restaurante privativo da diretoria, passar raiva, sofrer enfarte, cultivar úlcera…

Produzir riqueza dessa forma tem sido um bom jeito de adoecer, envelhecer antes da hora, endurecer o coração, decepcionar-se, deprimir-se. Também tem sido uma boa forma de encurtar a vida dos outros, reduzir o prazer de viver, baixar a estima, criar desesperança.

Tem-se aprendido muito sobre gerentes e gerência. Detentores do poder sofrem pressão por resultados, começam a ganhar peso, a barriga avoluma-se, fumam e bebem demais, não vêem os filhos crescerem, casam-se e separam-se, riem muito nos bares e restaurantes. No trabalho demonstram poder com frases do tipo:

-“Por mim você permaneceria, mas a empresa decidiu cortar custos reduzindo níveis gerenciais”.

Atrás dessa frase há outra versão. No dia anterior ensaiou-se com o diretor esta argumentação falsa e inquestionável. Armação que se fez em meio a gargalhadas. Aqueles que riram se esquecem que poderão ser, “a próxima vítima”. Hoje ri e demite, amanhã é demitido e chora.

Gerentes não devem se esquecer que lidam com pessoas e com suas histórias de vida. História de vida é coisa séria. Eis algumas:

Um gerente relatou-me, com ar de superioridade, ter dado advertência escrita a um vendedor que faltou pela terceira vez sem lhe avisar. Este gerente desconhecia a história de vida de seu vendedor. A “vítima” tem pai alcoólatra, violento, destrutivo que certa vez passeando com os filhos, ainda crianças, disse-lhes que um dia os veria pedindo esmolas debaixo de uma ponte. Os filhos deram “a volta por cima”, freqüentam universidades, são ótimos alunos. Mas às vezes atrasam-se, para atender o pai , que vive hoje pelas ruas. Pai assim dá trabalho e estes filhos sentem vergonha de confessar a verdadeira razão de suas faltas e atrasos.

Uma recepcionista, tida como mal humorada e inconstante em termos de concentração, foi demitida. Uma das prováveis causas deste seu comportamento: foi estuprada pelo tio aos cinco anos e só falou disso com seus pais quando já tinha 28 anos. ” A Empresa não tem nada com isso”, dirão os insensíveis.

Um motorista de taxi que conduz executivos foi gerente de produção. Até então não acreditava nas razões que lhe apresentaram no ato de sua demissão. Sempre foi pontual, nunca saiu antes da hora combinada. Sente saudades dos amigos e comenta emocionado que nunca mais foi convidado para a “cervejinha” das sextas feiras. Perdeu emprego, casa, carro, mulher e filhos. Estes não suportaram a queda do padrão de vida. Ficaram envergonhados, não entendiam o fracasso do pai, nem acreditavam que ele não conseguia um novo emprego “digno”. Motorista de grande dignidade, mostra que enxugamento de estruturas convém à competitividade e não convém à família.

Um jovem de 20 anos, ex-segurança de uma empresa, órfão aos 14 anos, por duas vezes foi amarrado por assaltantes. Na primeira vez o assaltante atirou e a arma falhou. Na empresa atual acreditam que não vai fazer carreira. Nem sempre se mostra proativo, não se esforça em dar continuidade aos estudos. Ele ainda não acredita estar vivo. É conveniente que os amigos digam isso a ele.

Um participante de treinamento escreveu carta ao instrutor agradecendo-o de forma emocionada por ter-lhe sugerido voltar a estudar. Confessa que em 1995, quando lhe fizeram essa sugestão, sentiu raiva e revolta. “Esses consultores recebem fortunas da empresa para nos dar lição de moral, sem saber da nossa realidade. Sugerir que um trabalhador estude à noite, depois de trabalhar doze horas e receber 200 reais” é um absurdo. Meses depois fez o curso supletivo. Três anos depois passou no vestibular e entendeu que essa é a realidade do brasileiro. Para aproximadamente 80.000 candidatos, a UFMG pôde oferecer, em 1999, algo em torno de 4000 vagas. Dos 76 mil candidatos restantes, grande parte precisa trabalhar “duro” para conseguir pagar entre 300 e 700 reais por mês a uma faculdade particular.

São sobreviventes. Homens e mulheres que fazem carreira, chegam ao topo das organizações com histórias emocionantes, rompendo barreiras e preconceitos.

Gerentes precisam aprender mais sobre essas pessoas, sobre a gente brasileira. Precisam aprender que, ao darem ordens, cobrarem resultados, criticarem desempenho ou postura, deveriam saber com quem estão falando.

Considerando todo este contexto, é preciso também reinventar a área de RH. Somente nomenclatura nova, como capital intelectual, capital humano, soam como discurso vazio não se somarem a estratégias para despertar a auto estima e o respeito mútuo. Esses são a base para se sentir merecedor da felicidade e entender que se tem valor, independentemente do cargo que ocupa.

Publicado no Jornal Estado de Minas – 21/01/01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *