A lucidez de quem tem vinte anos

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Passada a euforia da mudança de milênio, livres do esperado BUG que não veio, podemos nos dedicar ao balanço que realmente importa: os sinais concretos de desenvolvimento ético, da conquista da felicidade.

Criados sob a pressão da revolução industrial os maiores de setenta anos aprenderam a importância de produzir, trabalhar duro até aposentar. Os méritos caiam sobre os que prestavam serviço a uma só empresa, por trinta e cinco anos. Parecia aceitável morrer de acidente de trabalho, doenças respiratórias causadas pelo pó das minas de ouro. O que contava era produzir muito, não importava o que.

Quem admirava poesia e artes era considerado preguiçoso e improdutivo. Muitos dos que hoje tem sessenta e puderam desfrutar do privilégio de chegar à universidade, desfrutaram do status, usaram o dinheiro para a projeção pessoal, adquiriram patrimônio, consumiam coisas ou consumiam-se em ilusões. Outros tiveram o juízo de criar filhos responsáveis, entendo o dinheiro como um recursos que só faz sentido para proporcionar qualidade de vida. Entenderam que qualidade de vida não decorre de ter carro ou casa melhores que o do vizinho.

Parte dos nascidos nos anos cinqüenta copiou o modelo dos pais e avós Workholics, Ganharam dinheiro trabalhando de oito às vinte e duas horas, afastados de mulher ou marido, sem ver os filhos crescerem. Orgulharam-se por conseguir apartamento de quatro quartos em região valorizada, ter carro importado, visitar Disney por mais de uma vez, mandar filhos fazerem intercâmbio no Canadá. Acertaram mais os que querendo tudo isso, ensinaram valores, mostraram que não vale adular os de cima, competir com os pares, pisar nos humildes Quarenta anos de sociedade pós industrial merecem pouca comemoração.

Médicos, correndo de bairro a outro para somar renda de três empregos públicos. Dentistas sentiram falta da clientes particulares. Engenheiros, constataram que os computadores calculavam estruturas com rapidez e confiabilidade, a baixo custo. Aprenderam cálculos sofisticados mas não lhes ensinaram a liderar equipes, a lidar com pessoas.

A automação de fábricas, a informatização dos escritórios, a pressão pela competitividade levaram a perdas constante de emprego, redução de níveis hierárquicos, fim do sonho de promoção e carreira patrocinados pela empresa.

Descrença e medo do futuro são temas constantes na conversa dos quarentões. Mais realista parece a visão dos que nasceram nos anos sessenta. Filhos de hippies descobriram que droga, sexo e rock and roll foi uma combinação que não deu certo. Fez criar filhos sem limite, que agora precisam aprender a não dirigir bêbados, menos pela multa e mais pelo respeito à própria vida e à vida do outro.

Para os menores de vinte anos pais e avós deixam herança melhor. Estão se perguntando para que trabalhar tanto, para que comprar tanto, para que mentir tanto. Mulheres não valem mais apenas pela virgindade, homens e mulheres não aceitam apaixonar pela fortuna do sogro. Embora criticados pela baixo compromisso com notas altas, pela irreverência e falta de motivação para o esforço acadêmico, nas escolas , precisamos enxergar o que não visível ao olhar acusativo.

Primeiramente, o relacionamento está se tornando mais verdadeiro. Os universitários confessam a cola aos professores que colavam sem admitir. Em lugar de apenas música estrangeira, jovens negros, mulatos, brancos, vindos de bairros das regiões de leste, oeste, sul e norte, dançam o Gonzagão, freqüentam forró, sambatórios. Resgatam a seu modo, talentos e raízes musicais. Ouvem Caetano e Gil, curtem Chico Buarque. Enfrentam os pais na escolha da profissão. Podem até fazer medicina por pressão familiar, mas são capazes de desistir no terceiro ano, optando por computação gráfica, artes cênicas, turismo, gestão ambiental. Admitem que vão ser professores. Aplausos para eles. Sabem que viverão em um mundo sem emprego, onde o sucesso e o dinheiro ganho com trabalho honesto mudaram de lugar.

Carreira bem sucedida não resultará de emprego estável, de se ter pai empresário, contar com amigos influentes. Decorrerá da competência, de trabalhar com amor, o que só ocorre com quem faz o que gosta, o que dá brilho aos olhos. A virada de milênio é oportunidade “imperdível” para professores: mais trabalho em grupo, ênfase em ensinar mais valores e menos conteúdo sem significado. Chance para os pais: reconhecer filhos simpáticos, éticos, respeitosos no trato com o outro, capazes de pedir desculpas, agradecer, rever posturas, lidar com os fatos sem resistir ou negar.

Oportunidade para as empresas: admitir profissionais comprometidos com a vida, incapazes de vender a alma ao capital. Melhor continuar operário ou analista em negócios éticos, que ser promovido a diretor de empresa que fabrica armas.

Oportunidade para o MEC: pensar “provões” inteligentes, que analisam menos a memória para datas e mais a capacidade de decisão e reflexão.

Oportunidades para pais e avós. Parar de praticar a “lei de Gerson”, ensinar os filhos a obedecerem a polícia interna, não apenas a que se posta nas ruas para punir avanços de sinal. Em lugar de perguntar ao filho ou filha o sobrenome, o endereço do namorado como forma de avaliar padrão de vida, ensiná-lo a saber quem o outro é, o que valoriza na vida, o que importa para ela ou ele, o que valorizam em si e no outro. O que realmente poderá reduzir as gritantes diferenças sociais, violência e miséria será a construção de relacionamentos baseados em valores.

Mais que nós , quem agora tem vinte anos está vendo que aqui se faz aqui se paga, que nem tudo termina em pizza. Basta ler a revista “Época ” de treze de dezembro de 1999 e ver o que vem acontecendo com a turma do presidente deposto Fernando Collor: de Zélia Cardoso aos filhos de PC Farias, nenhum motivo para comemorar, mas uma pesada herança sempre lembrada. De agora em diante valerão a amizade sincera, o relacionamento verdadeiro, o trabalho com significado, o empenho na solução dos problemas sociais, a descoberta do que realmente importa na construção de uma sociedade mais justa, construída por pessoas mais felizes, a partir da força das parcerias.

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